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Gay, negro e periférico: Samuel Gomes fala sobre seu novo livro, “Guardei No Armário”

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Gay, negro e periférico: Samuel Gomes fala sobre seu novo livro, "Guardei No Armário"
Rawpixel/Reprodução

No final de setembro, Samuel Gomes, selecionado no ano passado como um dos Top Voices do LinkedIn, lançou seu livro Guardei No Armário: trajetórias, vivências e a luta por respeito à diversidade racial , social, sexual e de gênero, publicado pelo grupo Companhia das Letras. Com uma linguagem sensível, Samuel – que também é criador de um canal no YouTube com o mesmo nome que o livro – fala sobre sua própria vivência como homem negro e gay, não apenas refletindo sobre essas questões no mercado de trabalho, mas também dentro de uma sociedade racista e preconceituosa.

Nascido e criado na periferia, em meio a uma família religiosa, Samuel narra sua luta para estudar e dá detalhes sobre o seu processo de autodescoberta. Além de sua trajetória pessoal, o livro conta com entrevistas inéditas – feitas pelo próprio autor – de diversas personalidades LGBTQIA+ brasileiras, que, assim como ele, abriram seus armários e compartilharam com o mundo suas história para fora deles.

Em entrevista à todateen, Samuel comentou sobre o seu passado e sobre o processo criativo para escrever o livro.

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Confira!

Você, com uma linguagem simples e sensível, consegue gerar empatia e se comunicar com as pessoas. Quando foi que você decidiu criar um canal de YouTube?

Decidi fazer o canal quando ainda estava no processo de escrita do livro que foi antecessor a esse. Eu já tinha entendido que ele não deveria ser visto como um manual de saída do armário, mas sim um recorte específico de uma vivência no país que mais ameaça a existência de pessoas como eu: negro, LGBT e periférico. Sou formado em Design Gráfico graças às políticas públicas de inclusão de pessoas pretas e periféricas na faculdade. Isso me deu base e conhecimento para fazer tudo que eu faço hoje. Tive acesso aos dados da professora Regina Dalcastagnè da UNB, com o reflexo da diversidade na literatura, isso é visível em outras esferas e não seria diferente no Youtube. No começo do canal, eu nem aparecia nos vídeos por medo de sofrer racismo pela minha pele escura. Fiquei dois anos só entrevistando as pessoas LGBTs, mas não aparecia. Depois que consegui vencer o racismo que me aprisionava, consegui mostrar vários outros novos quadros além do de saída do armário, que é o carro chefe.

Como você começou a se interessar pela escrita e pela literatura?

Pela leitura acredito que veio ficar mais forte a vontade quando descobri os livros do Sherlock Holmes. Acho que foi o primeiro livro que me prendeu ao ponto de me transportar pra um outro universo. Na infância eu era quase como obrigado a ler a Bíblia, mas era mais por conta da igreja, então nem conto. Os livros que fui lendo quando comecei a estudar sobre quem eu era, foram os pilares para minha vontade de ler ainda mais. Achei livros de psicólogos que falavam sobre sexualidade, romances, científicos, auto-ajuda entre tantos outros. Eles me deram a base de quase tudo que entendo sobre minha homossexualidade. Tive acesso a literatura negra faz bem pouco tempo, acredito que bem poucos anos. Esses livros também tem me fortalecido enquanto homem negro brasileiro, periférico e gay. Escrever veio como uma necessidade de expulsar as angústias que me engasgava durante meus dias. A escrita foi o único recurso para não me matar. A escrita foi a única forma de colocar pra fora o que meus amigos crentes não queriam ouvir, foi a forma que encontrei de falar sobre coisas que muitos não queriam entender. A escrita me deu paz, a escrita me conectou com pessoas, a escrita me fez ter amigos e me mostrou que não sou uma abominação, mesmo que alguns insistem em dizer o contrário.

De onde veio a ideia de compilar todas as suas experiências em um único livro?

Ela veio da dor que sentia de nunca me ver representado nos livros que lia, nos filmes que via e nas novelas que assistia. Convido ao leitor me apresentar os últimos 5 livros lidos de autores negros. Eu mesmo não tinha esse número pra falar na época, somados a minha sexualidade, muito do que eu lia eram traduções de obras gigantescas vindas de fora. Já tinha registrado parte da minha trajetória num blog. Dessa forma foi mais fácil montar uma linha do tempo. Esse blog eu construí quando me vi só e precisava registrar tudo que aprendia ou vivia em relação a minha sexualidade. Foi lá o meu cantinho seguro. Lá que escrevia todos os meus textos e aos poucos fui sendo conhecido por ele. Frequentava uma ONG chamado Projeto Purpurina no centro de São Paulo. Essa ONG criada pelo Grupo GPH (Grupo de Pais de Homossexuais) liderado na época pela doutora Edith Modesto, me acolheu quando eu ainda nem entendia que quem eu sou é totalmente normal. Lá aprendi tanto sobre a vivência LGBTQIA+, toda a luta necessária para manter nossos direitos. Tive referenciais positivos de como é a vida de pessoas que não seguem um padrão exigido das sociedade.

Sendo um homem gay, negro, ex‑evangélico e periférico, como você acha que “Guardei no Armário” auxilia outras pessoas?

Pouco se fala na saúde mental das pessoas periféricas. O meu livro auxiliará pessoas que se identificam com a minha vivência entender que elas não estão erradas ou condenadas. É preciso falar sobre o perigo que é você viver uma vida de exclusão social e financeira, vivendo sob o jugo religioso ( porque na periferia não tem tantos consultórios terapêuticos como igrejas ) pela sua orientação sexual ou identidade de gênero. Esse livro não é só para homens negros gays. Esse livro são para todos que querem de fato entender um pouco sobre alguns assuntos como negritude e reconhecer o racismo dentro e fora das instituições. É sobre perceber que a intersecção de vivência nos dá outros resultados e muitas vezes ainda mais graves. Para além do que conto neste livro, ele é importante por existir no país que mais mata LGBTQIA+ e pessoas pretas no mundo.

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Como o fato de você vir de um ambiente bastante religioso impactou na sua vida?

A criação em uma ambiente religioso pode ter me trazido alguns benefícios, mas acredito que todos eles são valores que não depende de uma bíblia para acontecer. São valores que carrego pra mim e que vejo em várias pessoas que me inspiram. Dito isto, preciso mencionar os traumas que essas instituições causam na mente de seus fiéis que acreditam fielmente no que é dito nestes púlpitos. Eu tive acesso a histórias reais de pessoas que tiraram suas vidas, foram expulsas de casa, tem traumas gigantescos e hoje tem transtornos psicológicos por conta do abuso sofrido nessas igrejas. Imagina só você crescer sendo uma pessoas com medo de ser quem é, com medo de perder o amor incondicional que você aprende na escola que não tem fim. Viver todos os dias pedindo pra ser “curado” de algo que não tem cura. Pedindo perdão por existir a cada respiração e não se sentindo digno de felicidade, pois a própria existência configura num “pecado”. Às vezes acho que as pessoas ainda não tem dimensão do quanto isso é doloroso ou se sabem, tem tanto medo de cutucar esse terreno porque sabem que dali sairão o pior lado do ser humano. Héteros dificilmente saberão o que é entender que o amor de quem criou não existe de uma hora pra outra. Olhares que mudam, empregos se perde, relacionamentos não vingam, a vida algumas vezes têm mais dificuldades de prosperar. Tudo isso por conta da LGBT fobia sofrida por pessoas que poderiam estar contribuindo genuinamente para um futuro muito melhor do que estamos vendo. São pessoas como eu, mas que talvez não tenham achado um pouco de força para seguir caminhando e ainda estão no armário. Eu sofro ainda os impactos dessa criação vendo o resquícios dela ainda aparecendo nas minhas falas, frases, pensamentos e atitudes. É uma luta constante, mas vale a pena.

Como profissional da área da comunicação, no que diz respeito à diversidade de pautas na mídia, quais aspectos você acha que ainda tem que ser melhorados?

A diversidade na mídia ainda não reflete o que é o Brasil. Somos um povo majoritariamente negro e ainda assim temos campanhas falando sobre inclusão e diversidade, colocando uma ou outra pessoa apenas e de uma tonalidade bem mais próxima da branca. Quantos negros de dread foram modelos de produtos de cabelo que vocês conhecem? Quantas pessoas periféricas ou que tenham em seus históricos uma vivência periférica estão nas mesas de decisões dessas agências que atendem grandes marcas? Levanto essas perguntas em minha resposta para fazer vocês entenderem que quando falamos de diversidade na mídia, precisamos falar de toda cadeia e não só do produto que sai como comercial. É por isso que vou na raiz. É por isso que proponho sempre um diálogo através de minhas palestras em agências e corporações. Falo com RH, com os líderes de equipe, com os liderados e se possível com toda a cadeia.

Na sua opinião, o que te deu força para enfrentar alguns dos percalços da vida?

A raiva. A raiva me moveu positivamente, pois tinha raiva de ter que ser condenado por pessoas que nem saibam da minha vida, nunca tinham se preocupado em pagar uma única conta sequer, me levar pra algum parque ou bancar meus estudos. Essas pessoas se colocavam como próximo de Deus, mas era um deus malvado, punitivo, condenatório, inalcançável, distante, bravo, sem piedade ou amor. Eu comecei a ter raiva de quem dizia que eu tinha que acreditar em um Deus assim. Tive raiva do grande medo que sentia de ir para o inferno, pois ele foi um dos condutores de várias travas sociais que enfrentei. Tive raiva de não ter me expressado quando sofri racismo na infância e adolescência, pois na época a igreja falava que era vontade de Deus um problema claramente estrutural e histórico. Dizem que a raiva não nos leva para um lugar bom e é verdade, mas saiba canalizá-la nas suas potencialidades. Ressignifiquei essa raiva e consegui liberar todo o amor que eu sinto por ser quem sou. Penso que tudo que foi construído até aqui já tem feito muito mais do que pais e mães nesse país tão LGBT fóbico. Quem conhece o projeto Guardei no Armário, quem leu o livro, viu os vídeos ou já assistiu alguma palestra sabe o amor que é emanado dele. O que começou com uma raiva bem direcionada virou um grande campo florido de amor onde os meus iguais podem ter esperanças de serem felizes.

Ao narrar sua luta para estudar e seus processos de autodescoberta, você desmascara diversos problemas estruturais. Quais foram os principais desafios que você já enfrentou ao longo de sua carreira?

A maior dificuldade que ainda enfrento é investimento financeiros e recursos para poder aprender e desenvolver melhor meus conhecimentos. Durante anos me coloquei pra baixo me comparando a amigos meus do mercado. Eu só esqueci de fazer o recorte racial e social, pois quando você é o único da sua raça em um ambiente, você acaba não fazendo algumas ligações básicos. O acesso dessas pessoas com quem eu trabalhei sempre foi muito superior ao que vivi até hoje. Experiências fora do país por anos, estudos em ótimas faculdades e escolas particulares, possibilidades tecnológicas e de internet que é bem difícil de encontrar nas periferias. Basta lembrar que entrei em um curso que muitos diziam que não teria condições de finalizá-lo pois não só a matrícula mesmo com bolsa de 50% era caro, mas ainda tinha todos os materiais caros que sempre pediam. Muitos deles não começaram a trabalhar tão cedo como eu pra poder comprar minhas roupas, dar de presente para os meus pais ou mesmo ir numa lanchonete com alguns amigos. A grande parte desses profissionais que trabalhei, não faziam ideia da realidade de uma pessoa preta. Me tornei em 2019, LinkedIn Top Voices e isso veio como um troféu que vejo aguardando desde os 13 anos, a idade que comecei a trabalhar. Hoje estou com 32, faço 33 em novembro e apesar de ter conquistado algumas coisas até aqui, fico me perguntando e passo a pergunta pra vocês: Uma pessoa branca com a carreira e o conhecimento que já possuo, estaria em qual posição hoje em dia? A minha maior batalha é para nunca mais passar pela realidade difícil que já vivi um dia.

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A história que você conta em Guardei no Armário é extremamente forte e demonstra esperança. Qual a principal mensagem que você quer passar com a obra?

Quero mostrar a essa sociedade que é a diversidade que salvará esse mundo. Enquanto não ouvirmos pessoas pessoas dos ditos “grupos minoritários”, continuaremos errando muito. Nós só somos pequenos na representatividade política e nas conquistas, mas não em números e vivência. Estamos entendendo aos poucos o valor de nossas vidas, existências e posicionamentos políticos. Creio que só isso nos libertará dessa cultura colonizadora que vivemos. A obra tem como objetivo mostrar que é possível sim vencer o medo e ser quem é.

De onde veio a ideia de entrevistar outras personalidades para o livro?

A ideia de entrevistar outras personalidades veio do sentimento que carrego até hoje de falta de representatividade na literatura nacional tendo pessoas negras, periféricas e ou LGBTQIA+ na literatura nacional. Tive a honra de colocar as história dos amigos, colegas de trabalho e pessoas que me inspiram. Vocês entenderão o quanto nossas histórias se aproximam e se assemelham em vários momentos. Contar só a minha história talvez não fosse suficiente para que as pessoas nos humanizassem. O objetivo é para que nos vejam para além das letrinhas que falamos sempre. Boa parte do sofrimento de uma pessoa LGBTQIA+ é causado por pessoas heterossexuais, assim como boa parte do sofrimento de pessoas pretas são causado por pessoas brancas. Só conseguiremos mudar esse cenário se essas pessoas em questão tenham acesso ao que fazem. Por isso que a diversidade de personalidades é tão grande. A pessoa lerá o livro por admirar o trabalho dele ou dela, mas acabará envolto em um projeto que pra mim é um manifesto por sobrevivência.

Por ainda ser um grande tabu, acho que sempre que for possível, é interessante falarmos sobre a importância de profissionais da saúde e da mente. Pra você, quais foi a importância de conversar com psicólogos e psiquiatras?

Para começar a responder essa pergunta preciso informar a quem não leu o livro ainda que o primeiro profissional que entrei em contato para entender sobre minha sexualidade foi um psiquiatra. Nele pedi um remédio pra ser hétero. Veja só onde o fundamentalismo religioso e o medo de ir pro inferno causam nas pessoas. Ainda bem que ele era um profissional comprometido com sua profissão e me encaminhou para uma terapeuta que consegui ter minhas primeiras conversas sobre o que eu vivia. Anos se passaram desde essa experiência e hoje tenho uma relação muito forte com os profissionais que me atendem hoje dessas duas especialidades, pois eles conseguiram identificar muitos traumas causados pela vivência que tinha. Conseguiram me tirar muitas vezes de um lugar sombrio que levam vários dos meus ao suicídio. Meu desejo é que tenhamos muito mais profissionais atendendo a periferia, pois só assim conseguiremos emancipar suas mentes, permitindo que elas enxerguem sua realidade a fim de decidir o que é melhor pra eles.

Você pretende publicar mais livros? Conta mais sobre os seus planos para o futuro!

Pretendo sim. Fui apresentado a pouco tempo como Editor Convidado da Editora Paralela e nesse período vou procurar estudar muito mais sobre para avaliar quando será o melhor momento para um novo livro e qual o tema que irei tratar. Por enquanto quero fazer esse livro ser o mais vendido do Brasil.

Quer deixar uma mensagem para os seus seguidores e leitores? Fique à vontade!

Acredito que tudo que falamos será de grande ajuda e apoio pra quem ainda estava com dúvidas se comprava ou não o livro. Se chegou até aqui nessa entrevista é porque de alguma forma você ficou preso e interessado no que tenho a dizer. Te convido a me dar essa chance de te fazer entender sobre coisas que talvez você nunca tenha se perguntado. Pra você que é LGBTQIA+ que está dentro do armário, saiba que estou lutando para que você pare de sofrer por ser quem é, tá bom? E a todos que são e já saíram deles, esse livro também é pra você. Eu te dou certeza que você revisitar seu passado e dele colherá frutos muitos positivos.


O livro Guardei No Armário pode ser adquirido na Amazon e no site oficial da Companhia das Letras.

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#StopAsianHate: entenda como a xenofobia se conecta com a política internacional

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#StopAsianHate: entenda como a xenofobia se conecta com a política internacional
Dia Dipasupil/Getty Images; Reprodução/TSE

O dia 19 de março de 2020 marcou o início formal do isolamento social, por conta da pandemia do coronavírus, em diversos países. Deste dia até 28 de fevereiro de 2021 foram registrados 3.795 relatos de discursos racistas e atos violentos contra asiáticos nos Estados Unidos, segundo a organização Stop AAPI Hate (Stop Asian American and Pacific Islander Hate). Cerca de 35,4% dos casos ocorreram no trabalho, 25,3% na rua e 10,8% online. Agressão verbal foi relatada em 68,1%, 20,5% contou com rejeição social e 11,1% agressão física.

Recentemente, em março, uma senhora chinesa de 76 anos residente de São Francisco disse às autoridades que um homem, sem motivo aparente, tentou lhe agredir enquanto atravessava a rua. Sem ter o que fazer, ela tentou se defender do agressor com uma bengala de madeira. Segundo informações divulgadas à imprensa, a polícia local no momento da notificação investigava um crime semelhante, que havia ocorrido dias antes com um idoso de raízes asiáticas. Entretanto, o caso que desembocou o ápice de manifestações em prol da hashtag #StopAsianHate, ocorreu no dia 16 do mesmo mês, na cidade de Atlanta. Robert Aaron Long, um homem branco de 21 anos, matou oito pessoas de uma casa de massagem, seis eram mulheres asiáticas.

Em São Paulo, o Instituto Sociocultural Brasil-China (Ibrachina) criou uma central de denúncias para reunir relatos de assédio à comunidade asiático-brasileira em todo o Brasil. O nome do canal é #RacismoNão e as denúncias são feitas através do e-mail racismonao@ibrachina.com.br, dando o nome da vítima, lugar e horário da agressão. Em maio já haviam cerca de 200 denúncias, fora os ataques virtuais xenofóbicos que o próprio instituto recebe em suas redes.

Como nós, da todateenjá refletimos na matéria “#StopAsianHate: como pessoas amarelas encaram o preconceito?”, falas hostis direcionadas às pessoas de raízes asiáticas não começaram na pandemia. Assim como nos Estados Unidos, estereótipos relacionados aos imigrantes e brasileiros com família descendente de países da Ásia existem há muito tempo, indo desde comentários pejorativos sobre características físicas à fetichização das mulheres e violência.

O que ocorreu durante a pandemia foi que os estereótipos já existentes, principalmente em relação aos chineses, foram reforçados por conta de um fenômeno político: a culpabilização do país pela pandemia, informação que é falsa, mas dita, nas entrelinhas ou não, por diversas figuras de influência, como os políticos brasileiros.

“Nós vivemos em sociedade. Essa é uma afirmação crucial para entender as dinâmicas das relações entre os seres humanos, não há como separar por completo política e economia do dia a dia dos cidadãos ‘comuns’. Ou seja, quando temos uma população bombardeada com informações falsas, como ‘a China quer espionar nossa vida’ ou ‘o vírus chinês que é responsável pela pandemia’, cria-se no subconsciente da população uma imagem negativa deste povo, lembrando que muitas vezes as informações chegam em pequenas parcelas e distorcidas para grande parte da sociedade”, é o que diz Sabrina Bomtempo, cientista política pela Universidade de Brasília (UnB), associada ao Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (CEDEC), consultora política e pesquisadora na BaseLab.

Em entrevista exclusiva para o site, Bomtempo comentou sobre como o aumento da violência com pessoas amarelas, dentro e fora do país, tem mais relação direta com política do que você imagina. Quer ver?

Brasil & China uma relação de negócios

Desde o governo de Fernando Henrique Cardoso as relações Brasil-China começaram a se fortalecer, com uma expansão significativa nos governos de Lula e Dilma Rousseff. Quando Michel Temer assume a presidência da república essa relação se mantém firme, com amplas conversas entre os países para, inclusive, importação da tecnologia 5G. 

É importante compreender que a relação entre os dois países envolve trocas comerciais e investimentos. O Brasil exporta principalmente produtos primários para a China (soja, carne, petróleo etc.) e importa bens de consumo (eletrônicos, equipamentos de telecomunicação, medicamentos, etc.), ao passo que a China também investe no Brasil por meio da aquisição de empresas e implementação de novos projetos. Os setores que recebem maiores investimentos e financiamentos chineses são os de energia, petróleo, gás e mineração.

A partir desta contextualização, temos uma relação econômica com a China onde ela é a principal importadora brasileira, com uma demanda que continuamente aumenta, justamente porque o país está em crescimento contínuo. Desse modo, há uma necessidade de não perder este “cliente” e, portanto, discute-se a importância de diversificar o leque de países que importam quantidade significativa de produtos brasileiros. Em síntese: o Brasil tem a China como seu principal cliente no comércio exterior, com quase 30% da receita do país, tornando-a uma nação essencial para a manutenção da saúde financeira do Brasil.

se o Brasil depende tanto da China, por que Bolsonaro desgasta a relação?

Sob o ponto de vista econômico, não há interesse em se afastar do principal importador de matéria-prima do país. Os comentários que Bolsonaro e sua “turma” fazem da China dizem respeito, em grande maioria, a um posicionamento ideológico, no qual veem a China como um país comunista que estaria tendo vantagens comerciais devido à relação entre o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido Comunista Chinês.

Além disso, também se dá em um contexto no qual Bolsonaro, antes e logo após eleito, busca aproximação constante dos Estados Unidos da América, principal rival comercial da China no contexto internacional e na época chefiado pelo ídolo de Bolsonaro, Donald Trump.

quais os interesses de Trump em uma rivalidade com a China?

A China e os EUA são as duas maiores potências mundiais, claro que isto já gerava alguma tensão entre os países antes da entrada de Donald Trump em 2016, no entanto, até se especulava a possibilidade de um bloco EUA-China. Ao assumir o governo estadunidense, Trump acreditou que poderia frear o desenvolvimento econômico da China por meio de sanções e taxas sobre produtos chineses, principalmente voltadas a área de tecnologia, o objetivo era acabar com o déficit comercial na relação EUA-China. Para ser mais didática, os Estados Unidos colocam mais dinheiro na China do que a China nos EUA, a ideia era mudar esta dinâmica.

Um exemplo dessa disputa e sanção dos EUA e China diz respeito à tecnologia 5G, que é liderada pela empresa chinesa Huawei, que foi acusada de usar seus equipamentos para espionagem; hoje a Huawei não é comercializada nos Estados Unidos e o país tenta baní-la de outras nações, com ameaças de sanções comerciais à elas.

por que nada mudou com Biden?

Uma das principais expectativas após a eleição de Biden era de que os Estados Unidos passasse a ter um papel mais conciliador em meio à rivalidade com a China. Entretanto, na primeira tour de políticos do governo Biden ao continente, o clima não foi de resolução de conflitos.

A China se encontra em um clima de rivalidade com o Japão, causado principalmente por uma nova lei de Pequim, que permite à Guarda Costeira do país atirar em navios estrangeiros, bem como repetidas investidas da China nas águas territoriais japonesas em torno das ilhas Senkaku, no Mar do Sul da China, e à instalação de sistemas antimísseis. Recentemente, políticos do governo Biden compareceram a uma série de eventos em uma tour pelo continente. O clima foi de muita tensão e provocações, justamente em março, quando ocorreram tantos registros marcantes de violência contra asiáticos nos Estados Unidos.

O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, tomou a palavra para citar queixas e reclamar de que, na véspera da reunião, Washington impôs sanções contra 24 funcionários dos governos central chinês e de Hong Kong. “Não é assim que se deve dar as boas-vindas aos convidados, e nos perguntamos se os Estados Unidos tomaram essa decisão para tentar obter alguma vantagem em sua interação com a China, mas certamente é um erro de cálculo, que só reflete a vulnerabilidade e fraqueza dentro dos Estados Unidos”, disse o político.

Ao longo da última semana, as Filipinas se queixaram da presença de uma milícia chinesa no recife de Whitsun, no mar do Sul da China. A explicação para isso está no fato de a China considerar que 85% daquelas águas territoriais seriam suas, portanto, militarizar essas regiões é parte de uma estratégia de ocupação desde 2014. Entretanto, Pequim afirma que os barcos presentes na região são apenas pesqueiros.

No domingo de Páscoa (4), um dos 11 porta-aviões nucleares dos Estados Unidos, o USS Theodore Roosevelt, entrou na região. Poucas horas antes, ainda no sábado (3), um porta-avião da China, o Liaoning, fez uma travessia no estreito de Miyako, onde ficam as ilhas Senkaku — que são desabitadas mas têm potenciais reservas de petróleo, e por ora são controladas pelo Japão.

“A tensão comercial entre os dois países se mantém e Biden não mostra pretensão de abandonar a política de disputa comercial e sanções adotadas por Trump. Além disso, o presidente americano tem feito severas críticas ao modelo trabalhista chinês, acusando-o de violação dos direitos humanos. O recente encontro entre representantes oficiais dos dois países foi marcado por comentários ariscos de ambas às partes em frente a TV, um comportamento incomum no mundo diplomático e que, portanto, mostra como estas tensões seguem presentes na relação EUA-China”, finaliza Bomtempo.

e o Brasil, mudou de ideia?

Apesar de Jair Bolsonaro, seu filho Eduardo Bolsonaro, o ex Ministro da educação Abraham Weintraub, bem como o ex Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, já terem feito comentários pejorativos em relação à China, o fato é que a Coronavac, vacina produzida pelo laboratório chinês Sinovac, é a vacina utilizada em 82,2% das doses aplicadas no país, segundo dados do consórcio de veículos de imprensa do qual o UOL faz parte, apurados em 5 de abril deste ano.

A necessidade de obter doses da Coronavac motivou uma mudança, relatada por jornalistas da cobertura política, da postura de Bolsonaro diante do governo chinês. O presidente recorreu ao governo em Pequim para obter novos ingredientes de vacinas. Quando as autoridades chinesas anunciaram novos suprimentos, Bolsonaro lhes agradeceu pela boa cooperação.

Acontece que, diante de tantas falas problemáticas há meses atrás, nada vem de graça. Diversos veículos de comunicação notaram que o ocorrido foi seguido por uma repentina declaração da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) sem objeções ao envolvimento do país com a Huawei, empresa chinesa que visa o acesso irrestrito para implementar o 5G no Brasil. Chocante essa permissão em um governo bolsonarista, não é mesmo? Afinal, desde Trump, ídolo de Bolsonaro, ocorrem acusações de que a empresa visa usar a tecnologia com fins de espionagem.

No fim do dia, apesar de fundarem ideologias de ódio, os acordos econômicos superam qualquer coisa. Entretanto, a raiva uma vez disseminada na massa, mesmo que para alimentar objetivos políticos, não para. E mata.

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Queridinhos de papelaria: 10 itens para ter e usar na sua rotina de estudos

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2. Caneta Fine Pen, Faber-Castell 

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4. Caneta Marca Texto, Faber-Castell, Grifpen, Tons Pastel 

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5. Divisória Fichário Papel, Mano 

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6. Caderneta Filibook, Filiperson, 30 Folhas

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7. Marcador de Página de Papel Post-it 

Reprodução/Amazon

8. Calendário Semanal Post-it com 2 blocos

Reprodução/Amazon

9. Lápis Grafite Redondo, Faber-Castell, EcoLápis SuperSoft Black 

Reprodução/Amazon

10. Caneta Hidrográfica Extra Fina, BIC, Intensity, 0.4mm 

Reprodução/Amazon

 

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Última Página | Ainda é hoje

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Ainda é hoje
Thais Menezes/@thamenezes.s

texto por Isabelle Costa (@avalancheliteraria)
ilustrações por Thais Menezes (@thamenezes.s)

 

O vídeo favorito do meu rolo de câmera desse ano é um em que tô dançando na chuva de jeans e sandália lilás.

Era pra ser um meu e dos meus amigos na sala do Henrique — que, palavras dele, tem a casa mais legal do bairro. Rindo de qualquer besteira. Lembrando histórias de beijos ruins, mas sobretudo dos bons, e que deixaram de existir. Esparramados no tapete, que transforma a casa num lar, e dividindo sem medo e por preguiça uma colher de brigadeiro. Criando memórias novas pra sobrepor as desse tempo, que são memórias de dor.

Eu já sabia que ia chover — a gente sempre sabe, porque as nuvens dão o primeiro sinal, e o dia muda de cor —, mas abri o portão e saí. Pensei neles. Nos meus amigos. Cada um no seu canto, onde sempre fiz festa sem a menor cerimônia. Pensei neles e dancei sozinha no meio do asfalto com quatro ou cinco livros na mão sob a desculpa que era pela foto. Pelo blog. Pelos livros. Mas não era, não. Era por mim, que cansei de sentir saudade.

Quinze segundos no meio do nada pra espantar a tristeza que chega, sorrateira, tão sutil quanto um céu de sol se transformando num céu de chuva. Girando ao meu redor: meus porquês não resolvidos, a conclusão de que perde a graça por a roupa mais bonita se ninguém vai ver, e eu, que sempre fui indecisa, mais certa do que nunca sobre o que quero.

Eu quero a praia vermelha. Quero vocês, shows da Anavitória no verão, noite de jogos que gosto mais agora, que são só lembrança-borrão. E gente feliz de verdade de novo.

Eu quero o futuro, mas ainda é hoje.

Ainda é hoje

Thais Menezes/@thamenezes.s


Isabelle Costa 

Fala de livros, escrita, criatividade e inspiração na Avalanche Literária, e desembola os fios soltos em seu blog na internet.

Instagram: instagram.com/avalancheliteraria
Blog: www.avalancheliteraria.com.br

Thais Menezes

Preta, baiana, ilustradora e designer.

Instagram: instagram.com/thamenezes.s
Behance: www.behance.net/thaismenezes

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